domingo, 15 de março de 2026

Compilação de Artigos: Cutelaria

 


Graça e paz!


Essa é a compilação dos artigos de cutelaria que eu fiz há cerca de dez anos atrás.



O Que É

Cutelaria, nada mais é do que a prática que visa criar, manter, estudar e admirar lâminas. Resumidamente é isso.


A cutelaria é imprescindível para preparadores, pois lâminas são necessárias para a sobrevivência e superação de crises.


Há alguns anos, o Diego Silva, o “Collector”, lançou uma tag de sucesso no YouTube: “Um Único Item Para Situação de Crise” e o item mais escolhido de todos, foi a faca. O segundo? O machado…


Isso mostra como a cutelaria é importante no meio preparador, mas também no sobrevivencialismo e no bushcraft e por isso mesmo, farei essa série.


Existem três tipos básicos de aço que no mercado: o Carbono, o Inox e o Damasco. Para nós, preparadores e sobrevivencialistas é fundamental conhecer cada tipo de aço existente, para assim, podermos planejar as nossas preparações e assim resistir ao “Dia Mal” (crise).


Esse é um artigo da série “Cutelaria”.


Se você não entende muito de aço e acha que é “tudo igual” esse texto é para você mesmo! :D



Aço Carbono

Desenvolvido em tempos imemoriais, o ferro quando misturado com pelo menos 0,6% de carbono após passar pela têmpera (forja) acaba se tornando esse tipo de aço, que é barato, fácil de trabalhar e também versátil. Infelizmente ele tem um ponto fraco: oxida com certa facilidade, fazendo com que a depreciação (o tempo de vida útil) seja maior em ambientes úmidos (como por exemplo a Amazônia Brasileira).


No entanto o aço carbono é mais rígido e resistente do que o aço inox (veja abaixo). Além disso, uma lâmina/pedaço de aço carbono, por conta da dureza, é capaz de ascender fogo a partir da fricção com uma pederneira.

Existem várias classificações (“sub-tipos”) de aço carbono.



Aço Inox

Este tipo de aço é recente na história, pois se o aço carbono surgiu há milhares de anos atrás seguido do aço damasco, o aço inox (abreviação de “inoxidável”) é praticamente um bebê, tendo o processo de fabricação sido desenvolvido em 1921, há menos de cem anos atrás!

A palavra “inoxidável” significa literalmente: “não sofre oxidação”. O aço carbono embora barato de se fabricar, resistente e duro, infelizmente sofre com o problema da oxidação que gera ferrugens com relativa facilidade, principalmente em ambientes úmidos (como já destacado no ponto anterior). Assim, o aço inoxidável possui um valor de depreciação muitíssimo menor do que o aço carbono, sendo extremamente resistente as intempéries climáticas mais diversas, principalmente a umidade relativa do ar.


No entanto nem tudo são flores: o aço inoxidável é menos duro e resistente do que o aço carbono, pelo simples motivo de que a quantidade total de ferro+carbono é menor, por conta da inserção de aproximadamente 1% de cromo, que é o responsável pelo incrível fator de conservação natural do aço inoxidável.


É provado cientificamente que peças de aço inoxidáveis, podem durar até cinquenta (isso mesmo, CINQUENTA!!!) vezes mais do que peças feitas com aço carbono!

Eu não vou entrar em maiores detalhes, mas existem classificações (sub-tipos) de aços inox, assim como em aços carbonos.



Aço Damasco

O chamado “aço damasco” não tem uma origem clara, mas aparentemente surgiu em algum lugar da Ásia (Índia e Síria) e foi adotada pelo então jovem Império Romano que utilizavam o aço damasco nas suas espadas (gladius).


Quando a parte Ocidental do Império caiu (476 d.C), a parte Oriental permaneceu e teve que bater-se com os persas e (a partir de 637 d.C) com os árabes, que em apenas cem anos, tomaram 2/3 das terras habitadas por cristãos. Em algum momento, o processo de formação do dito aço caiu na obscuridade, vindo a ser conhecido novamente durante As Cruzadas (1095-1270), onde ferreiros que viviam em Damasco (Síria) faziam espadas com uma lâmina sem igual para os cruzados europeus.


Após As Cruzadas, a técnica caiu na obscuridade novamente vindo a ser “ressuscitado” em meados do século XX. Desde então, peças de aço damasco tem tomado o mercado de lâminas e na última década (nos países desenvolvidos) tais peças tem se tornado mais acessíveis e populares.




Conclusão Preparadora

Vamos lá: se onde você vive e/ou mantém a sua B.O.L (“abrigo secundário”) é um local com pouca umidade, eu recomendo peças de aço carbono. Se o seu orçamento é baixo, também recomendo que compre uma peça de aço carbono, independente da umidade relativa do ar.


Caso você tenha um orçamento um pouco melhor, sugiro que adquira uma peça de aço inoxidável, principalmente se você estiver em um ambiente com alta taxa de umidade e/ou a sua B.O.L se encontrar em um local mais afastado da civilização.


O aço inox exige muito pouco cuidado em relação a conservação, podendo não receber manutenção periódica por tempo prolongado, o que aumenta a autonomia e a auto-suficiência do preparador.


Agora, se você deseja um aço com características unificadas dos anteriores e podes pagar uma boa quantia por ela, recomendo uma peça de aço damasco: são extremamente resistentes, duros e exigem muito pouca manutenção ao longo dos anos. Porém o investimento para se obter uma peça feita com esse maravilhoso aço é bastante elevado.


Em suma: compre aquilo que se encaixe nas suas necessidades e ao seu bolso e esteja preparado!



SOBRE AS LÂMINAS

Um leigo sempre diz que “faca é tudo igual!”, porém, quem possui mais experiência nessa área sabe perfeitamente bem que essa afirmativa é um equívoco: existem lâminas e mais lâminas e cada uma tem o seu propósito específico.



Principais Tipos de Lâminas e Suas Utilidades

Vou escrever agora apenas os principais tipos, pois se eu fosse falar de cada tipo de lâmina existente, seria necessário criar uma série apenas para isso.



  • Canivete Suíço: também chamado de “Knife of Swiss Soldier”, os canivetes suíços são ferramentas verdadeiramente úteis para pequenas e delicadas tarefas, como abrir pacotes, cartas e outras funções mais. Cada modelo de canivete possui funcionalidades que mudam de abrangência. Uns possuem tesoura, outros serras e alguns outros não possuem nenhum dos dois! O canivete (independente de ser suíço ou não) se destaca por seu poder de porte velado, podendo ter o seu tamanho reduzido pela metade e expandido quando o usuário assim o quiser ao sacar a lâmina. A Victorinox afirma que o seu fundador seria o desenvolvedor da tecnologia de molas e pressão que há no canivete quando a lâmina do mesmo é aberta.


  • Faca: independente do modelo ou função para o qual foi desenhada, a faca possui uma coisa que o canivete não possui, na verdade duas; a faca não pode ser dobrada sobre si como no caso do canivete e a segunda coisa é que o fato de a faca não ser retrátil, faz com que ela tenha uma capacidade de resistência maior. Canivetes por terem a lâmina unida ao cabo por um sistema de molas e parafusos, possui maior fragilidade, enquanto que a faca por ter a lâmina e a espiga em uma só peça é mais resistente por si só (e mais indicada para trabalhos mais pesados). Muitos preparadores, sobrevivencialistas e bushcrafters acham que só podem ter facas “full tang” (também conhecidas no Brasil como “perfil integral”), mas isso não é verdade, pois existem facas que não são de perfil integral (full tang) e executam perfeitamente bem as suas funções para as quais foram projetadas.


Alguns tipos de facas: de sobrevivência, para atividades outdoor, para coureamento (“skinner” em inglês), para cortar carne, com a lâmina serrilhada, karambit e outras.




  • Machado: canivete é para atividades mais leves e delicadas, enquanto que a faca é para atividades de maior força. Os machados (independente do tipo) é para atividades onde se exige maior “ignorância”: cortar árvores, troncos, galhos, lenha, derrubar portas… essas e outras necessidades que exigem uma lâmina mais forte.



TIPOS DE LÂMINAS

Por anos de minha vida, achei que faca era “tudo igual” e que qualquer ponta servia para quaisquer atividades a serem desempenhadas. Ledo engano de minha parte!


Os formatos das facas, bem como as pontas das mesmas, as fazem diferenciarem-se não apenas na estética mas na funcionalidade. Com relação aos formatos deixo isso para outra oportunidade, porém eu trago para todos vocês, leitores, alguns formatos de pontas bem como para o que servem.



Esses são os tipos de pontas que apresentaremos nesse artigo:


Drop Point





Exemplo de Drop Point


As lâminas com esse tipo de ponta (drop point) são boas para praticamente todas as demandas que podem existir. É comumente encontrado em facas de sobrevivência, mas também é vista na maioria dos canivetes suíços.


As lâminas do tipo drop point são boas para atividades que envolvam o coureamento e a perfuração de animais. Isso acontece pelo formato da ponta, que favorece uma maior manobrabilidade enquanto a lâmina penetra a carne e os órgãos internos dos animais.



American Tanto Point





Exemplo de American Tanto Point


O American Tanto Point, também chamado de Tanto Point ou Chisel Point (chisel em inglês significa “formão”), essa ponta (por conta do formato) é perfeita para perfuração de objetos duros (como por exemplo kevlar).


Exatamente por causa de sua característica perfurante, lâminas com essa ponta são super indicadas para atividades que envolvam segurança, além de ações militares.



Needle Point




Exemplo de Needle Point


Como o próprio formato sugere, o Needle Point (needle significa “agulha” em inglês) é excelente para perfuração, pois o seu desenho (além de simetria em ambos os gumes) permite um ótimo desempenho nessa função. Porém há um problema nesse formato de ponta de lâmina: por conta da fina espessura, o Needle Point quebra com alguma facilidade após repetidos usos.


A melhor utilidade para uma lâmina tipo Needle Point, é para a auto-defesa, pois facas, canivetes, adagas e punhais com essa ponta, costumam serem péssimas para corte.



Clip Point




Exemplo de Clip Point


O Clip Point (também conhecido aqui no Brasil como “ponta/formato turco”) é praticamente a única ponta encontrada nas famosas (e muito mal faladas) Facas de Sobrevivência, mais conhecidas como “a Faca do Rambo”.


A utilidade dessa ponta de lâmina é simplesmente para um melhor aproveitamento em atividades de campo (outdoor) onde se exige responsabilidade e seriedade no que se está fazendo, como por exemplo a caça e a sobrevivência no mato (o clip point também é muito bom para cortes de laceração que exijam precisão sem perder a força).



Hawkbill Blade (Ponta Foice/Meia-Lua)




As lâminas com a Ponta Hawkbill são um tipo de lâmina muito distinta que se assemelha à forma curva do bico de um falcão (daí o nome em inglês, “Hawkbill”). Tem uma aresta côncava e a espinha da lâmina é tipicamente arredondada.


O uso ideal para lâminas com esse tipo de ponta: abrir caixas (e pacotes), cortar fios (decapagem), cortar cabos (cordas) e etc, embora lâminas com essa ponta sejam péssimas para e.d.c, por conta da portabilidade, com a provável exceção da karambit, que possui esse formato de lâmina e pode ser portável, caso seja um canivete.



Sheepfoot Point (Pica-Fumo)




Em inglês, essa ponta é apelidada de “sheepfoot”. As lâminas com a ponta “pica-fumo” possuem uma borda frontal reta e um dorso grosso que se curva para encontrar a borda reta.


O objetivo principal de uma ponta pica-fumo é cortar um ponto não desejado: esse nome é usado no português brasileiro, pois as lâminas com essa ponta eram (e ainda são) utilizadas nos interiores do Brasil, para aparar (“picar”) a ponta de cigarros e charutos (principalmente os feitos com palha). Lâminas com essa ponta, podem ser seguradas com os dedos, proporcionando um grande grau de controle. Além desses fatos, lâminas com a ponta pica-fumo são adequadas para dar um corte limpo ao serem utilizadas, oferece ao usuário um maior controle na pegada e no trabalho e não possuem ponta afiada (o que ajuda a evitar acidentes, embora isso não seja descartável – é difícil, mas não é impossível se machucar com uma lâmina com esse tipo de ponta).



Canivete da marca Bianchi com a lâmina Sheepfoot



Além de servir para atividades corriqueiras em escritórios (como abrir pacotes e cartas), no campo, pode-se utilizar as lâminas com ponta pica-fumo para a poda de mudas, para o descasque de frutas, além da já mencionada atividade de picar o fumo...


Obs: nos EUA, as lâminas com a ponta pica-fumo (sheepfoot) são populares entre os socorristas, pois permitem que eles fiquem seguros em atividades que envolvam o corte do cinto de segurança de veículos acidentados, sem machucarem a vítima por acidente. Essas pontas de lâminas foram originalmente feitas para cortarem os pés de ovelhas, o que também torna as lâminas pica-fumos, boas para atividades que envolvam a raspagem de madeira.



Straight-Back Point





A lâmina com a ponta Straight-Back (algo como “costa ou retaguarda forte” em inglês) também é chamada de “lâmina normal” porque é uma forma de lâmina muito tradicional. A frente da faca tem uma borda curva, enquanto a parte de trás tem uma frente reta, que permite uma pressão adicional. É muito boa em atividades que envolvam o corte e a laceração, qualidades indispensáveis para a culinária.



Pen Point (Caneta)




Esta ponta de lâmina minúscula é freqüentemente encontrada em canivetes suíços (“swiss knife army” em inglês). Os lados maçantes e afiados da inclinação da lâmina, possuem o mesmo grau, fazendo com que pareça uma ponta de lança (o que faz com que desavisados, acreditem se tratar de uma “Spear Point”).


Originalmente, lâminas com esse tipo de ponta, foram usadas para afiar a stilus (caneta com formato de pena). Embora não excepcionalmente afiada, uma lâmina com a Ponta de Caneta é uma ótima ferramenta para ter em seu bolso e é perfeita para pequenas tarefas (como as de escritório).




 Caneta Stilus


Dicas Gerais

  • A maioria das lâminas ao serem compradas, possuem um manual (alguns fabricantes de lâminas deixam esse manual disponível em seu respectivo site). Lá estão escritos quais as medidas necessárias para a preservação da sua lâmina! Caso você tenha comprado a sua lâmina e nenhum manual acompanhou-a ou mesmo o produto não tenha marca alguma (muitos produtos comprados em camelôs ou lojas de importados apresentam esse probleminha), então continue lendo esse artigo. Vamos ao próximo ponto?



  • Evite praticar o “batoning” com a sua lâmina! É preciso sempre deixar claro: lâminas (facas, canivetes, adagas, punhais…) NÃO foram criadas para racharem lenha! Quer rachar lenha? Usa um machado!



  • Evite que a sua lâmina entre em contato com a terra ou minerais, pois pedaços pequenos de minerais (como a areia) desgastam o fio e a própria lâmina. Com o tempo esse desgaste poderá estragar a sua lâmina! Essa dica vale também para rochas e até mesmo tijolos, cerâmicas e similares.



  • Saiba do quê e para o quê a sua lâmina foi feita. Saiba qual o aço que a sua lâmina é feita: apenas um leigo acha que aço “é tudo igual”. Minha resposta para essas pessoas: NÃO É NÃO! Lâminas menores e mais finas normalmente são voltadas para trabalhos que exijam precisão, enquanto que as mais “parrudas” quase sempre foram criadas para atividades mais intensas.



  • Com relação ao material do qual é feito, tente descobrir qual é o aço da sua lâmina e para o quê ele é útil: o famoso aço inoxidável 420C, por exemplo, foi concebido para ser resistente a água salgada (foi projetada para equipamentos de mergulho) e exatamente por isso, lâminas com esse tipo de aço são mais resistentes que a média, a água salgada (e a doce também, óbvio!). Sabendo qual o aço de sua lâmina é possível saber como conservar o seu equipamento por mais tempo, pois assim você saberá quais os limites naturais dele.



  • Canivetes são projetados para atividades leves, porém que exijam maior precisão. Caso o seu canivete molhe ou entre areia e/ou lama, saiba que você deve retirar quaisquer resquícios que tenham se instalado dentro do mecanismo e logo depois, lubrificar o mesmo mecanismo. Eu evitarei dizer qual tipo de lubrificante você deve utilizar, pois isso é uma questão pessoal, que envolve preço, marca e recomendações dos respectivos fabricantes dos canivetes.



Conclusão

Passei para você apenas as noções gerais. Lembre-se de consultar os manuais e/ou recomendações disponíveis oferecidas pelos respectivos fabricantes das lâminas!


Caso deseje, poderá baixar esse artigo em formato pdf. Clique aqui.

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Casa x Apartamento na Sobrevivência

 


 

 

Olá! Neste artigo iremos discorrer brevemente sobre as diferenças entre viver em uma Casa e um Apartamento no que diz respeito a sobrevivência (e preparação também).

 

Minha Experiência

Eu já vivi nos dois tipos de residências e posso afirmar que ambas possuem vantagens e desvantagens. Cabe a você encaixar-se e encaixar as suas preparações dentro do tipo de moradia em que tú habitas.

 

Casa

A casa proporciona muita autonomia em relação ao apartamento e essa é a maior vantagem dela. Pense, você pode quebrar paredes e acrescentar outras sem pedir permissão a ninguém (a não ser que onde você resida tenha uma lei específica para isso), você pode criar um bunker subterrâneo, você pode colocar uma caixa da água, pode instalar painéis solares sem ter que dar satisfações a ninguém sobre essas coisas.

Porém aqui no Brasil, a maior desvantagem da casa é a segurança: tenho um amigo que é sobrevivencialista e que saiu com a família toda para uma viagem e quando retornou, encontrou a sua casa arrombada e todos os seus bens (inclusive as suas preparações) haviam sido roubados! Sem mencionar que coisas como o telhado devem ser reparados obrigatoriamente depois de alguns anos.

Há duas ou três décadas as casas eram conhecidas por terem uma área maior do que os apartamentos, porém ultimamente isso não é mais uma verdade, pois se você procurar, existem muitas casas com o metro quadrado igual ao de apartamentos!

 

Apartamento

O apartamento possui pouca autonomia, pois como se situa dentro de uma área de condomínio, ele está restrito as regras da comunidade e para fazer algo, você deve pedir permissão do síndico ou submeter-se a uma reunião entre os condôminos que podem aprovar ou reprovar a sua petição.

Montar um bunker em um apartamento de classe média ou de classe média baixa é impossível, a não ser que você seja solteiro, more sozinho e tenha um cômodo disponível para isso, mas se esse não é o seu caso, esqueça.

Por experiência própria é possível estocar enlatados e outros tipos de equipamentos em apartamentos, desde que nele tenha armários para isso (que nem em uma casa). Eu recomendaria adquirir também “camas boxes” para otimizar o armazenamento de suas preparações.

A grande vantagem de se morar em um apartamento é a segurança que o mesmo proporciona: em um condomínio dificilmente entra e sai quem quer, além disso, sempre tem um vizinho mais atento que dá a dica de quando existe um suspeito na área. Além disso, caso ocorra um arrastão, se o seu apartamento estiver em um andar mais elevado (o mais longe possível do térreo) as chances dele ser assaltado são mínimas.

Além disso, por morarem muitas pessoas no prédio, você consegue ser mais discreto sobre ser um sobrevivencialista e um preparador do que em uma casa. Durante 36 anos eu morei em uma certa casa e sempre que eu chegava nela com uma preparação, eu tinha que escondê-la dentro de uma mochila, pois infelizmente a rua onde eu morava era movimentada e eu tinha vizinhos fofoqueiros...

Quando me mudei para um apartamento, eu mantive o hábito de esconder as minhas preparações dentro de uma mochila, porém isso não era mais necessário, pois a vizinhança estava tão entretida em viver as suas vidas que nunca deram atenção para mim ou para o que eu fazia. Aquela vizinhança nunca soube que eu era preparador e sobrevivencialista, também nunca souberam que eu tinha um estoque de água e comida para algumas semanas.

 

Conclusão

Existem vantagens e desvantagens para se morar tanto em apartamentos quanto em casas.

Qualquer que seja a sua moradia, prepare-se.

quinta-feira, 14 de março de 2024

Como Montar Um Abrigo Secundário Com Os Romanos!

 



Olá sobrevivencialistas!

Hoje eu estarei compartilhando com vocês dois enxertos do maior tratado militar ocidental de todos os tempos: o Epitoma Rei Militari, escrito por Flávio Vegécio.

As partes que eu estarei compartilhando por aqui, correspondem ao acampamento. Em muitos vídeos de sobrevivencialistas aqui no Brasil, vemos por exemplo pessoas sugerindo que se cave uma trincheira ao redor do acampamento ou do abrigo secundário (cuja sigla em inglês é “b.o.l”), porém nada mais é falado e ninguém no Brasil se aprofunda nesses temas.

Hoje eu irei fornecer na íntegra esses dois enxertos, retirados do Livro I e do Livro III da obra de Vegécio e que falam sobre acampamentos. Vocês irão notar que muitos preparadores e sobrevivencialistas, de maneira direta ou indireta, se basearam nos escritos abaixo.

 

ACAMPAMENTOS ENTRINCHEIRADOS

Os recrutas devem ser instruídos na maneira de entrincheirar acampamentos, não havendo disciplina tão necessária e útil como esta. Pois em um acampamento bem escolhido e entrincheirado, as tropas dia e noite permanecem seguras em seus trabalhos, mesmo à vista do inimigo. Parece se assemelhar a uma cidade fortificada que eles podem construir para sua segurança onde quiserem. Mas esta arte valiosa agora está totalmente perdida, pois há muito tempo nenhum de nossos acampamentos foi fortificado com trincheiras ou paliçadas. Por causa dessa negligência, nossas forças foram frequentemente surpreendidas dia e noite pela cavalaria inimiga e sofreram perdas muito severas. A importância deste costume resulta não só do perigo a que estão perpetuamente expostas as tropas que acampam sem tais precauções, mas da situação penosa de um exército que, após receber um revés em campo, encontra-se sem recuo e consequentemente à mercê do inimigo. Um acampamento, especialmente na vizinhança de um inimigo, deve ser escolhido com muito cuidado. Sua situação deve ser forte por natureza, e deve haver abundância de madeira, forragem e água. Se o exército deve continuar nele por um tempo considerável, deve-se ter atenção à salubridade do local. O acampamento não deve estar abaixo de terrenos mais elevados de onde possa ser atacado ou incomodado pelo inimigo, nem o local deve estar sujeito a inundações que exponham o exército a grande perigo. As dimensões dos acampamentos devem ser determinadas pelo número de tropas e quantidade de bagagem, para que um grande exército tenha espaço suficiente e um pequeno não seja obrigado a se estender além de seu terreno apropriado. A forma dos acampamentos deve ser determinada pelo local do país, de acordo com o qual devem ser: quadrados, triangulares ou ovais. O Portão Pretoriano deve ficar de frente para o leste ou para o inimigo. Em um acampamento temporário, deve ficar de frente para o lado o qual o exército deve marchar. Dentro deste portão são armadas as tendas das primeiras centúrias ou coortes, e os dragões e outras insígnias plantadas.

O portão Decumano fica diretamente oposto ao Pretoriano na parte de trás do acampamento, e por ele os soldados são conduzidos ao local designado para punição ou execução.

Existem dois métodos de entrincheirar um acampamento. Quando o perigo não é iminente, eles cavam uma pequena vala ao redor de todo o circuito, com apenas nove pés de largura e sete de profundidade [2,7m x 2,1m]. Com a terra retirada, eles fazem uma espécie de parede ou parapeito de três pés de altura [1,5m] no lado interno da vala. Mas onde houver motivo para temer os ataques do inimigo, o acampamento deve ser cercado por uma vala regular de doze pés de largura e nove pés de profundidade [3,7m x 2,7m] perpendicular à superfície do solo. Um parapeito é então levantado no lado próximo ao acampamento, com a altura de quatro pés [1,2m], com barreiras e fascículos devidamente cobertos e presos pela terra retirada da vala. A partir dessas dimensões, a altura interior da trincheira será de treze pés [4m] e a largura do fosso de doze [3,7m]. No topo do conjunto estão plantadas fortes paliçadas que os soldados carregam constantemente consigo para esse fim. Um número suficiente de pás, picaretas, cestas de vime e ferramentas de todos os tipos deve ser fornecido para esses trabalhos.

Não há dificuldade em manter as fortificações de um acampamento quando nenhum inimigo está à vista. Mas se o inimigo estiver próximo, toda a cavalaria e metade da infantaria devem ser colocadas em ordem de batalha para cobrir o resto das tropas que trabalham nas trincheiras e estar prontas para receber o inimigo se ele se oferecer para atacar. As centúrias são empregadas alternadamente no trabalho e são regularmente chamados ao descanso por um pregoeiro até que o todo [da obra] seja concluído. É então inspecionado e medido pelos centuriões, que punem os que foram indolentes ou negligentes. Este é um ponto muito importante na disciplina dos jovens soldados, que quando devidamente treinados para isso, poderão em uma emergência fortificar seu acampamento com habilidade e agilidade.Vegécio, Epitoma Rei Militari – Livro I

 

REGRAS PARA ACAMPAR UM EXÉRCITO

Um exército em marcha não pode esperar sempre encontrar cidades muradas como quartéis, e é muito imprudente e perigoso acampar de maneira dispersa sem algum tipo de trincheira. É fácil surpreender tropas enquanto se refrescam ou se dispersam nas diferentes ocupações do serviço. A escuridão da noite, a necessidade de dormir e a dispersão dos cavalos no pasto oferecem oportunidades de [ataque] surpresa. Uma boa situação para um acampamento não é suficiente; devemos escolher o melhor que puder ser encontrado para que, não tendo conseguido ocupar um posto mais vantajoso, o inimigo se apodere dele em nosso detrimento.

Um exército não deve acampar no verão perto de águas ruins ou longe das boas, nem no inverno em uma situação sem abundância de forragem e madeira. O acampamento não deve estar sujeito a inundações repentinas. As avenidas não devem ser muito íngremes e estreitas para que, se atacadas, as tropas tenham dificuldade em recuar; nem deve estar debaixo [de qualquer terreno] alto dos quais possa ser incomodado pelas armas do inimigo. Após essas precauções, o acampamento é formado quadrado, redondo, triangular ou oblongo, de acordo com a natureza do terreno. Pois a forma de um acampamento não constitui sua resistência. Esses acampamentos, no entanto, são considerados melhores quando o comprimento é um terço maior que a profundidade. As dimensões devem ser calculadas com exatidão pelos engenheiros, de modo que o tamanho do acampamento seja proporcional ao número de tropas. Um acampamento muito confinado não permitirá que as tropas realizem seus movimentos com liberdade, e um muito extenso os divide demais. Existem três métodos de entrincheirar um acampamento: a primeira é para o caso em que o exército está em marcha e permanecerá no acampamento por apenas uma noite. Eles então erguem um leve parapeito de terra e o plantam com uma fileira de paliçadas ou estrepes de madeira. Os gramados são cortados com instrumentos de ferro. Se a terra é fortemente mantida unida pelas raízes da grama, elas são cortadas na forma de um tijolo de um pé e meio de altura [45cm], um pé de largura [30cm] e um pé e meio de comprimento [45cm]; se a terra estiver tão solta que a relva não possa ser cortada dessa forma, eles abrem uma pequena trincheira ao redor do acampamento, com um metro e meio de largura e um metro de profundidade. A terra retirada da trincheira forma um parapeito por dentro e isso protege o exército do perigo. Este é o segundo método.

Mas acampamentos permanentes, seja para verão ou inverno, nas proximidades de um inimigo, são fortificados com maior cuidado e regularidade. Depois que o terreno é demarcado pelos oficiais apropriados, cada centúria recebe um certo número de pés para entrincheirar. Eles então colocam seus escudos e bagagem em um círculo sobre suas próprias coortes e, armados com suas espadas, abrem uma trincheira de nove, onze ou treze pés de largura [2,7m, 3,3m e 3,9m]. Ou, se eles estão sob grande pressão do inimigo, eles o ampliam para dezessete pés [5,1m] (sendo regra geral observar números ímpares). Dentro dela, eles constroem uma muralha com galhos de árvores bem amarrados com estacas, para que a terra possa ser melhor sustentada. Sobre esta muralha erguem um parapeito com ameias como nas fortificações de uma cidade. Os centuriões medem o trabalho com varas de dez pés de comprimento [3m] e examinam se cada um completou corretamente a proporção que lhe foi designada. Os tribunos também inspecionam o trabalho e não devem deixar o local até que tudo esteja concluído. E para que os operários não sejam subitamente interrompidos pelo inimigo, toda a cavalaria e a parte da infantaria dispensada pelo privilégio de seu posto de trabalhar, permanecem em ordem de batalha diante da trincheira para estarem prontas para repelir qualquer assalto.

A primeira coisa a ser feita após o entrincheiramento do acampamento é plantar as insígnias, mantidas pelos soldados com a mais alta veneração e respeito, em seus devidos lugares. Depois disso, o Pretório é preparado para o general e seus tenentes, e as tendas armadas para os tribunos, que têm soldados especialmente designados para esse serviço e para buscar água, madeira e forragem. Então as legiões e auxiliares, cavalaria e infantaria, têm o terreno distribuído a eles para armar suas tendas de acordo com a classificação dos vários corpos. Quatro soldados de infantaria de cada centúria e quatro soldados de cada tropa estão de guarda todas as noites. Como parecia impossível para uma sentinela permanecer uma noite inteira em seu posto, os relógios foram divididos pela ampulheta em quatro partes, para que cada homem pudesse ficar apenas três horas. Todos os guardas começam [o seu turno] ao som da trombeta e saem [do seu turno] ao som da corneta. Os tribunos escolhem homens idôneos e confiáveis ​​para visitar os diferentes postos e relatar a eles tudo o que encontram de errado. Este é agora um cargo militar e as pessoas nomeadas para ele são chamadas de oficiais das rondas.

A cavalaria fornece os grandes guardas à noite e os postos avançados durante o dia. Eles são aliviados todas as manhãs e tardes por causa do cansaço dos homens e cavalos. Incumbe particularmente ao general providenciar a proteção dos pastos e dos comboios de grãos e outras provisões, seja no acampamento ou na guarnição, e garantir madeira, água e forragem contra as incursões do inimigo. Isso só pode ser feito colocando destacamentos nas cidades ou castelos murados [que estão] nas estradas por onde avançam os comboios. E se não se encontrarem antigas fortificações, devem-se edificar pequenos fortes em situações próprias, rodeados de grandes fossos, para a recepção de destacamentos de cavalaria e infantaria, para que os comboios sejam eficazmente protegidos.Vegécio, Epitoma Rei Militari - Livro III

 

Bem pessoal, eu espero ter ajudado. Se gostou, compartilhe essa postagem: você me ajuda bastante ao fazer isso!


terça-feira, 10 de outubro de 2023

Preparando-se com pouco dinheiro


 


Olá! Hoje iremos dar uma dica rápida de como se preparar tendo pouco dinheiro.

 

 

Base

Enquanto eu escrevo este texto (Outubro de 2023), o salário mínimo é de R$1.320,00. Para se preparar tendo pouco dinheiro, minha sugestão é investir 2% do que você ganha mensalmente com algum item que vai te auxiliar nas preparações, seja enlatados, água, ou alguma outra coisa. Pegando o salário mínimo como base, 2% do valor acima citado, dá cerca de R$26,40.

 

Exemplo

A minha ideia de investir 2% do que você ganha por mês (independentemente do quanto você que me lê ganha) tem a sua inspiração na OTAN: um país membro daquela aliança militar é obrigado a investir no mínimo 2% do seu PIB em defesa. Nos últimos anos a maior parte desses países não investiram essa quantidade, resultado: estão despreparados contra o expansionismo da Rússia de Vladimir Putin.

 

Hoje eu gastei R$6,00 com pilhas que ajudaram-me a preparar-me para uma possível escuridão. Não podemos depender exclusivamente da luz dos celulares, precisando ter uma fonte alternativa (e barata) de luz, caso seja necessário.


quinta-feira, 8 de junho de 2023

Minha Rota de Fuga - Parte 2


 


Olá! No artigo passado eu postei sobre a descoberta de uma rota que me permitiria evadir no caso de uma crise (situação SHTF) e me comprometi a testá-la.

 

Rota 1, Dia 1

Primeiramente eu andei 2 km e não comi nada, apenas bebi água e café com leite para efetuar o teste. Depois disso, peguei a minha mochila de fuga (go bag) e segui do Ponto Zero até o Ponto AE.

 

O Ponto AE é um beco que não está registrado em nenhum mapa ou buscador da internet. Em situação de Crise (SHTF) ele poderá vir a se converter em um ponto nevrálgico da minha fuga.

 

Do Ponto Zero até o Ponto AE, levei cerca de 9 minutos andando a pé por uma área de casas de família.

 

Do Ponto AE até o Ponto AF, levei cerca de 3 minutos (sempre a pé e com a minha go bag nas costas). O Ponto AF marca o segundo ponto crítico da rota de fuga, pois ali inicia a minha caminhada até o Ponto AZ, que é o local da minha extração. Uma avenida movimentada marca o percurso, com diversas lojas que em situação de Crise (SHTF) poderiam estar cheias de bandidos saqueando-as ou tendo pessoas se matando no meio da dita avenida em busca de alimentos. Do Ponto AF até o Ponto AZ, eu levei cerca de 13 minutos caminhando. Ressalto que eu caminhei a passo normal o tempo todo com cerca de 2 kg de equipamentos nas costas.

 

Em resumo:

 

-Do Ponto Zero até o Ponto AE, levei 9 minutos.

-Do Ponto AE até o Ponto AF, levei 3 minutos.

-Do Ponto AF até o Ponto AZ (local de extração) levei 13 minutos.

-Ao todo, caminhei 25 minutos do Ponto Zero até o Ponto AZ.

 

 

Rota 2, Dia 2

No dia seguinte eu repeti o teste, mas por outra rota (o meio das duas rotas coincidem). Neste segundo dia eu tinha almoçado e andado 2km antes de efetuar o teste pela Rota 2.

Eu saí do Ponto Zero e segui por um caminho diferente: fui até o Ponto AB (um posto de gasolina). Levei 8 minutos.

Depois eu segui para o Ponto AF: do Ponto AB até o Ponto AF eu demorei 9 minutos e passei por uma área de condomínios e comércio. Fiquei pensando que tipo de moradores e frequentadores devem passar por ali e o que fariam em uma situação de Crise (SHTF).

Por fim eu segui do Ponto AF até o Ponto AZ (Zona de Extração) pelo mesmo caminho da Rota 1. Levei 14 minutos.

 

Em resumo:

-Ponto Zero até o Ponto AB: 8 minutos.

-Ponto AB até o Ponto AF: 9 minutos.

-Ponto AF até o Ponto AZ: 14 minutos.

-Ao todo, eu caminhei 31 minutos do Ponto Zero até o Ponto AZ.

 

Faço questão de ressaltar que carreguei toda a minha mochila de fuga (go bag) pesando 2 kg de equipamentos.


Um gráfico simples com as Rotas de Evasão.

 

E você leitor, testou a sua rota de fuga? Conte-me nos comentários!


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