Graça e paz!
Essa é a compilação dos artigos de cutelaria que eu fiz há cerca de dez anos atrás.
O Que É
Cutelaria, nada mais é do que a prática que visa criar, manter, estudar e admirar lâminas. Resumidamente é isso.
A cutelaria é imprescindível para preparadores, pois lâminas são necessárias para a sobrevivência e superação de crises.
Há alguns anos, o Diego Silva, o “Collector”, lançou uma tag de sucesso no YouTube: “Um Único Item Para Situação de Crise” e o item mais escolhido de todos, foi a faca. O segundo? O machado…
Isso mostra como a cutelaria é importante no meio preparador, mas também no sobrevivencialismo e no bushcraft e por isso mesmo, farei essa série.
Existem três tipos básicos de aço que no mercado: o Carbono, o Inox e o Damasco. Para nós, preparadores e sobrevivencialistas é fundamental conhecer cada tipo de aço existente, para assim, podermos planejar as nossas preparações e assim resistir ao “Dia Mal” (crise).
Esse é um artigo da série “Cutelaria”.
Se você não entende muito de aço e acha que é “tudo igual” esse texto é para você mesmo! :D
Aço Carbono
Desenvolvido em tempos imemoriais, o ferro quando misturado com pelo menos 0,6% de carbono após passar pela têmpera (forja) acaba se tornando esse tipo de aço, que é barato, fácil de trabalhar e também versátil. Infelizmente ele tem um ponto fraco: oxida com certa facilidade, fazendo com que a depreciação (o tempo de vida útil) seja maior em ambientes úmidos (como por exemplo a Amazônia Brasileira).
No entanto o aço carbono é mais rígido e resistente do que o aço inox (veja abaixo). Além disso, uma lâmina/pedaço de aço carbono, por conta da dureza, é capaz de ascender fogo a partir da fricção com uma pederneira.
Existem várias classificações (“sub-tipos”) de aço carbono.
Aço Inox
Este tipo de aço é recente na história, pois se o aço carbono surgiu há milhares de anos atrás seguido do aço damasco, o aço inox (abreviação de “inoxidável”) é praticamente um bebê, tendo o processo de fabricação sido desenvolvido em 1921, há menos de cem anos atrás!
A palavra “inoxidável” significa literalmente: “não sofre oxidação”. O aço carbono embora barato de se fabricar, resistente e duro, infelizmente sofre com o problema da oxidação que gera ferrugens com relativa facilidade, principalmente em ambientes úmidos (como já destacado no ponto anterior). Assim, o aço inoxidável possui um valor de depreciação muitíssimo menor do que o aço carbono, sendo extremamente resistente as intempéries climáticas mais diversas, principalmente a umidade relativa do ar.
No entanto nem tudo são flores: o aço inoxidável é menos duro e resistente do que o aço carbono, pelo simples motivo de que a quantidade total de ferro+carbono é menor, por conta da inserção de aproximadamente 1% de cromo, que é o responsável pelo incrível fator de conservação natural do aço inoxidável.
É provado cientificamente que peças de aço inoxidáveis, podem durar até cinquenta (isso mesmo, CINQUENTA!!!) vezes mais do que peças feitas com aço carbono!
Eu não vou entrar em maiores detalhes, mas existem classificações (sub-tipos) de aços inox, assim como em aços carbonos.
Aço Damasco
O chamado “aço damasco” não tem uma origem clara, mas aparentemente surgiu em algum lugar da Ásia (Índia e Síria) e foi adotada pelo então jovem Império Romano que utilizavam o aço damasco nas suas espadas (gladius).
Quando a parte Ocidental do Império caiu (476 d.C), a parte Oriental permaneceu e teve que bater-se com os persas e (a partir de 637 d.C) com os árabes, que em apenas cem anos, tomaram 2/3 das terras habitadas por cristãos. Em algum momento, o processo de formação do dito aço caiu na obscuridade, vindo a ser conhecido novamente durante As Cruzadas (1095-1270), onde ferreiros que viviam em Damasco (Síria) faziam espadas com uma lâmina sem igual para os cruzados europeus.
Após As Cruzadas, a técnica caiu na obscuridade novamente vindo a ser “ressuscitado” em meados do século XX. Desde então, peças de aço damasco tem tomado o mercado de lâminas e na última década (nos países desenvolvidos) tais peças tem se tornado mais acessíveis e populares.
Conclusão Preparadora
Vamos lá: se onde você vive e/ou mantém a sua B.O.L (“abrigo secundário”) é um local com pouca umidade, eu recomendo peças de aço carbono. Se o seu orçamento é baixo, também recomendo que compre uma peça de aço carbono, independente da umidade relativa do ar.
Caso você tenha um orçamento um pouco melhor, sugiro que adquira uma peça de aço inoxidável, principalmente se você estiver em um ambiente com alta taxa de umidade e/ou a sua B.O.L se encontrar em um local mais afastado da civilização.
O aço inox exige muito pouco cuidado em relação a conservação, podendo não receber manutenção periódica por tempo prolongado, o que aumenta a autonomia e a auto-suficiência do preparador.
Agora, se você deseja um aço com características unificadas dos anteriores e podes pagar uma boa quantia por ela, recomendo uma peça de aço damasco: são extremamente resistentes, duros e exigem muito pouca manutenção ao longo dos anos. Porém o investimento para se obter uma peça feita com esse maravilhoso aço é bastante elevado.
Em suma: compre aquilo que se encaixe nas suas necessidades e ao seu bolso e esteja preparado!
SOBRE AS LÂMINAS
Um leigo sempre diz que “faca é tudo igual!”, porém, quem possui mais experiência nessa área sabe perfeitamente bem que essa afirmativa é um equívoco: existem lâminas e mais lâminas e cada uma tem o seu propósito específico.
Principais Tipos de Lâminas e Suas Utilidades
Vou escrever agora apenas os principais tipos, pois se eu fosse falar de cada tipo de lâmina existente, seria necessário criar uma série apenas para isso.
Canivete Suíço: também chamado de “Knife of Swiss Soldier”, os canivetes suíços são ferramentas verdadeiramente úteis para pequenas e delicadas tarefas, como abrir pacotes, cartas e outras funções mais. Cada modelo de canivete possui funcionalidades que mudam de abrangência. Uns possuem tesoura, outros serras e alguns outros não possuem nenhum dos dois! O canivete (independente de ser suíço ou não) se destaca por seu poder de porte velado, podendo ter o seu tamanho reduzido pela metade e expandido quando o usuário assim o quiser ao sacar a lâmina. A Victorinox afirma que o seu fundador seria o desenvolvedor da tecnologia de molas e pressão que há no canivete quando a lâmina do mesmo é aberta.
Faca: independente do modelo ou função para o qual foi desenhada, a faca possui uma coisa que o canivete não possui, na verdade duas; a faca não pode ser dobrada sobre si como no caso do canivete e a segunda coisa é que o fato de a faca não ser retrátil, faz com que ela tenha uma capacidade de resistência maior. Canivetes por terem a lâmina unida ao cabo por um sistema de molas e parafusos, possui maior fragilidade, enquanto que a faca por ter a lâmina e a espiga em uma só peça é mais resistente por si só (e mais indicada para trabalhos mais pesados). Muitos preparadores, sobrevivencialistas e bushcrafters acham que só podem ter facas “full tang” (também conhecidas no Brasil como “perfil integral”), mas isso não é verdade, pois existem facas que não são de perfil integral (full tang) e executam perfeitamente bem as suas funções para as quais foram projetadas.
Alguns tipos de facas: de sobrevivência, para atividades outdoor, para coureamento (“skinner” em inglês), para cortar carne, com a lâmina serrilhada, karambit e outras.
Machado: canivete é para atividades mais leves e delicadas, enquanto que a faca é para atividades de maior força. Os machados (independente do tipo) é para atividades onde se exige maior “ignorância”: cortar árvores, troncos, galhos, lenha, derrubar portas… essas e outras necessidades que exigem uma lâmina mais forte.
TIPOS DE LÂMINAS
Por anos de minha vida, achei que faca era “tudo igual” e que qualquer ponta servia para quaisquer atividades a serem desempenhadas. Ledo engano de minha parte!
Os formatos das facas, bem como as pontas das mesmas, as fazem diferenciarem-se não apenas na estética mas na funcionalidade. Com relação aos formatos deixo isso para outra oportunidade, porém eu trago para todos vocês, leitores, alguns formatos de pontas bem como para o que servem.
Esses são os tipos de pontas que apresentaremos nesse artigo:
Drop Point
Exemplo de Drop Point
As lâminas com esse tipo de ponta (drop point) são boas para praticamente todas as demandas que podem existir. É comumente encontrado em facas de sobrevivência, mas também é vista na maioria dos canivetes suíços.
As lâminas do tipo drop point são boas para atividades que envolvam o coureamento e a perfuração de animais. Isso acontece pelo formato da ponta, que favorece uma maior manobrabilidade enquanto a lâmina penetra a carne e os órgãos internos dos animais.
American Tanto Point
Exemplo de American Tanto Point
O American Tanto Point, também chamado de Tanto Point ou Chisel Point (chisel em inglês significa “formão”), essa ponta (por conta do formato) é perfeita para perfuração de objetos duros (como por exemplo kevlar).
Exatamente por causa de sua característica perfurante, lâminas com essa ponta são super indicadas para atividades que envolvam segurança, além de ações militares.
Needle Point
Exemplo de Needle Point
Como o próprio formato sugere, o Needle Point (needle significa “agulha” em inglês) é excelente para perfuração, pois o seu desenho (além de simetria em ambos os gumes) permite um ótimo desempenho nessa função. Porém há um problema nesse formato de ponta de lâmina: por conta da fina espessura, o Needle Point quebra com alguma facilidade após repetidos usos.
A melhor utilidade para uma lâmina tipo Needle Point, é para a auto-defesa, pois facas, canivetes, adagas e punhais com essa ponta, costumam serem péssimas para corte.
Clip Point
Exemplo de Clip Point
O Clip Point (também conhecido aqui no Brasil como “ponta/formato turco”) é praticamente a única ponta encontrada nas famosas (e muito mal faladas) Facas de Sobrevivência, mais conhecidas como “a Faca do Rambo”.
A utilidade dessa ponta de lâmina é simplesmente para um melhor aproveitamento em atividades de campo (outdoor) onde se exige responsabilidade e seriedade no que se está fazendo, como por exemplo a caça e a sobrevivência no mato (o clip point também é muito bom para cortes de laceração que exijam precisão sem perder a força).
Hawkbill Blade (Ponta Foice/Meia-Lua)
As lâminas com a Ponta Hawkbill são um tipo de lâmina muito distinta que se assemelha à forma curva do bico de um falcão (daí o nome em inglês, “Hawkbill”). Tem uma aresta côncava e a espinha da lâmina é tipicamente arredondada.
O uso ideal para lâminas com esse tipo de ponta: abrir caixas (e pacotes), cortar fios (decapagem), cortar cabos (cordas) e etc, embora lâminas com essa ponta sejam péssimas para e.d.c, por conta da portabilidade, com a provável exceção da karambit, que possui esse formato de lâmina e pode ser portável, caso seja um canivete.
Sheepfoot Point (Pica-Fumo)
Em inglês, essa ponta é apelidada de “sheepfoot”. As lâminas com a ponta “pica-fumo” possuem uma borda frontal reta e um dorso grosso que se curva para encontrar a borda reta.
O objetivo principal de uma ponta pica-fumo é cortar um ponto não desejado: esse nome é usado no português brasileiro, pois as lâminas com essa ponta eram (e ainda são) utilizadas nos interiores do Brasil, para aparar (“picar”) a ponta de cigarros e charutos (principalmente os feitos com palha). Lâminas com essa ponta, podem ser seguradas com os dedos, proporcionando um grande grau de controle. Além desses fatos, lâminas com a ponta pica-fumo são adequadas para dar um corte limpo ao serem utilizadas, oferece ao usuário um maior controle na pegada e no trabalho e não possuem ponta afiada (o que ajuda a evitar acidentes, embora isso não seja descartável – é difícil, mas não é impossível se machucar com uma lâmina com esse tipo de ponta).
Canivete da marca Bianchi com a lâmina Sheepfoot
Além de servir para atividades corriqueiras em escritórios (como abrir pacotes e cartas), no campo, pode-se utilizar as lâminas com ponta pica-fumo para a poda de mudas, para o descasque de frutas, além da já mencionada atividade de picar o fumo...
Obs: nos EUA, as lâminas com a ponta pica-fumo (sheepfoot) são populares entre os socorristas, pois permitem que eles fiquem seguros em atividades que envolvam o corte do cinto de segurança de veículos acidentados, sem machucarem a vítima por acidente. Essas pontas de lâminas foram originalmente feitas para cortarem os pés de ovelhas, o que também torna as lâminas pica-fumos, boas para atividades que envolvam a raspagem de madeira.
Straight-Back Point
A lâmina com a ponta Straight-Back (algo como “costa ou retaguarda forte” em inglês) também é chamada de “lâmina normal” porque é uma forma de lâmina muito tradicional. A frente da faca tem uma borda curva, enquanto a parte de trás tem uma frente reta, que permite uma pressão adicional. É muito boa em atividades que envolvam o corte e a laceração, qualidades indispensáveis para a culinária.
Pen Point (Caneta)
Esta ponta de lâmina minúscula é freqüentemente encontrada em canivetes suíços (“swiss knife army” em inglês). Os lados maçantes e afiados da inclinação da lâmina, possuem o mesmo grau, fazendo com que pareça uma ponta de lança (o que faz com que desavisados, acreditem se tratar de uma “Spear Point”).
Originalmente, lâminas com esse tipo de ponta, foram usadas para afiar a stilus (caneta com formato de pena). Embora não excepcionalmente afiada, uma lâmina com a Ponta de Caneta é uma ótima ferramenta para ter em seu bolso e é perfeita para pequenas tarefas (como as de escritório).
Caneta Stilus
Dicas Gerais
A maioria das lâminas ao serem compradas, possuem um manual (alguns fabricantes de lâminas deixam esse manual disponível em seu respectivo site). Lá estão escritos quais as medidas necessárias para a preservação da sua lâmina! Caso você tenha comprado a sua lâmina e nenhum manual acompanhou-a ou mesmo o produto não tenha marca alguma (muitos produtos comprados em camelôs ou lojas de importados apresentam esse probleminha), então continue lendo esse artigo. Vamos ao próximo ponto?
Evite praticar o “batoning” com a sua lâmina! É preciso sempre deixar claro: lâminas (facas, canivetes, adagas, punhais…) NÃO foram criadas para racharem lenha! Quer rachar lenha? Usa um machado!
Evite que a sua lâmina entre em contato com a terra ou minerais, pois pedaços pequenos de minerais (como a areia) desgastam o fio e a própria lâmina. Com o tempo esse desgaste poderá estragar a sua lâmina! Essa dica vale também para rochas e até mesmo tijolos, cerâmicas e similares.
Saiba do quê e para o quê a sua lâmina foi feita. Saiba qual o aço que a sua lâmina é feita: apenas um leigo acha que aço “é tudo igual”. Minha resposta para essas pessoas: NÃO É NÃO! Lâminas menores e mais finas normalmente são voltadas para trabalhos que exijam precisão, enquanto que as mais “parrudas” quase sempre foram criadas para atividades mais intensas.
Com relação ao material do qual é feito, tente descobrir qual é o aço da sua lâmina e para o quê ele é útil: o famoso aço inoxidável 420C, por exemplo, foi concebido para ser resistente a água salgada (foi projetada para equipamentos de mergulho) e exatamente por isso, lâminas com esse tipo de aço são mais resistentes que a média, a água salgada (e a doce também, óbvio!). Sabendo qual o aço de sua lâmina é possível saber como conservar o seu equipamento por mais tempo, pois assim você saberá quais os limites naturais dele.
Canivetes são projetados para atividades leves, porém que exijam maior precisão. Caso o seu canivete molhe ou entre areia e/ou lama, saiba que você deve retirar quaisquer resquícios que tenham se instalado dentro do mecanismo e logo depois, lubrificar o mesmo mecanismo. Eu evitarei dizer qual tipo de lubrificante você deve utilizar, pois isso é uma questão pessoal, que envolve preço, marca e recomendações dos respectivos fabricantes dos canivetes.
Conclusão
Passei para você apenas as noções gerais. Lembre-se de consultar os manuais e/ou recomendações disponíveis oferecidas pelos respectivos fabricantes das lâminas!
Caso deseje, poderá baixar esse artigo em formato pdf. Clique aqui.










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